L U C I A N O   G A R C E Z EM
You´re The Trickster

Há tempos o compositor Luciano Garcez vem tecendo o cuidadoso fio de sua teia estética, captando e capturando na mesma aquilo que a Canção Popular Brasileira tem de “exceção”. Por “exceção” não se deve entender o objeto que se exclui porque original, mas que se insere e fecunda a tradição e o novo justamente por conta de sua enorme vitalidade de significados. Assim, mais do que criar, pretende-se extrair do Tempo uma “multiplicanção”: aquela que expressa a plenitude da tensão entre a palavra / melodia / harmonia / rítmica e etc. E o desmonte de, e o observar o, e o reler a, e etc. Ir até o morro buscando a Ode grega - sair do quintal da Tia Ciata assobiando Schoenberg - dissolver a Bossa-Nova em ruptas moléculas de punk rock - fazer o cordel se agalopar em infinitos megapixels - Schubert a esta hora há de estar tomando uma água de coco nas nuvens com o tranquilo Dorival...

Em “You´re The Trickster”, espelho de todos os olhares, lança-se mão - na concepção toda do show - de recursos cênicos, hiper-referentes e mitopoéticos, não como o prolongamento artificioso da idéia de “canção”, mas como um braço, uma voz dentro da voz dizendo mais sobre si. Há a presença de uma atriz como objeto multisimbólico, uma “desmusa” de nomes vários, se transmutando constantemente e tornando assim o show uma grande “linguagem” inclusiva, onde há a interação sutil entre palco e platéia, demonstração e expectativa, mensagem e receptor.

Título emprestado de um arquétipo do herói presente em várias culturas, o “Trickster” é aquele que atua com diversas máscaras e posturas, sendo mutante por excelência e instaurador do caos para que uma ordem posterior, e nova, prevaleça. Assim, de posse deste “modus ludens artístico”, pretende-se um questionamento lúdico do fazer e representar a MPB nos dias de hoje, tomando como tema fundante a sociedade contemporânea e seus protagonistas, sejam eles proeminentes ou desconhecidos, mas, sobretudo, abolindo de um golpe a tendência decorativa, classicizante e inócua da canção brasileira atual, em favor de uma arte atuante - sem a pretensão infantil do engajamento - que penetre a consciência do público e faça dela seu próprio desejo e seu sonho insuspeito. Pois, como advertia Pound, tudo pode soar belíssimo - e não “funcionar”...

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